''Reprovei 25 vezes até tirar minha carteira de motorista''
''Reprovei 25 vezes até
tirar minha carteira de motorista''
Atualizado em março de 2017
Foi a primeira vez que eu saí do carro da autoescola sem que
o avaliador dissesse uma palavra. Eu tinha feito uma baliza e seguido
perfeitamente o percurso, sem qualquer erro. Aquele maravilhoso silêncio só
podia significar uma coisa: eu havia sido aprovada no exame! Foram 25
reprovações até que, na 26ª tentativa, meu sonho se realizou: me tornei uma
motorista!

Dirigir era meu sonho desde menina
Desde os 15 anos eu sonhava em entrar num carro, assumir o
volante e sair por aí dirigindo. Eu não sei explicar o porquê, só sei que
sentia que minha vida mudaria com uma carteira de motorista em mãos. Foi só aos
29 anos, já casada, que senti pela primeira vez o gostinho de guiar um carro.
Meu marido me levou para um lugar tranquilo aqui em Tamarana, a pequena cidade
paranaense onde vivo, e assim pude dirigir pela primeira vez. E logo de cara
deu tudo certo. Nunca poderia imaginar que eu só teria minha CNH em mãos dali
11 longos anos!
O processo todo durou oito anos e custou cerca de R$ 20 mil.
Precisei fazer mais de 200 aulas, um sufoco só! E paguei tudo direitinho, nem
desconto eu pedia. Sei que eu era prejudicada pelo nervosismo, o que me fez
tomar calmantes quase todas as vezes que fui fazer a prova. Ela era dividida em
duas fases: na primeira eu fazia a baliza, que é aquilo de conseguir estacionar
o carro entre outros dois carros, sabe? Superdifícil. Na segunda eu tinha de
fazer o percurso normal, guiar, dar seta, parar o carro e seguir. O problema é
que se eu fosse mal na baliza nem iria para a parte do percurso, já reprovaria
ali. Das 25 vezes em que fui reprovada só passei para a parte do percurso em
três delas. Mas aí eu ficava ainda mais nervosa e ao invés de fazer o carro ir
para frente, ele voltava para trás.
Sei que havia quem olhasse para a minha insistência em tirar
a carteira de motorista e achasse estranho, as pessoas me julgavam. Eu não sou
dondoca, não tinha dinheiro sobrando. Pelo contrário, sou diarista e tenho uma
família bem simples. Mas cada um tem seu sonho e o meu era ser uma motorista
habilitada. Por isso, mesmo depois de tanta reprovação, nunca desisti.
Havia quem dissesse para eu deixar de gastar tanto dinheiro
e comprar a Carteira de uma vez, mas eu nunca achei certo. Além disso, nunca
ouvi falar desse tipo de esquema em Londrina, onde fazia os exames, e nunca me
ofereceram nada. Enquanto Deus me desse força para trabalhar, eu ia separar um
dinheiro para pagar a autoescola. Chorar também não era algo que fazia quando
não passava no teste. Sabia que sempre haveria outra tentativa. Alcançaria
minha Carteira pela persistência.
Minha família foi um ponto de apoio bastante importante
nesses 11 anos. Meu marido, Odair, nunca me disse para desistir, ele foi muito
companheiro em todos os momentos. Meus dois meninos, Gustavo, de 5 anos e
Diogo, de 12, ficavam tristes quando eu não passava e diziam para eu não me
preocupar porque da próxima vez ia dar certo. Mesmo novinhos, eles sempre foram
bastante conscientes e me incentivaram a vencer aquele obstáculo! Até a minha
mãe, já bastante doente, sempre me deu muita força para nunca desistir. Com um
time desses, como jogar a toalha?
Um erro do sistema
quase fez tudo ir por água abaixo
Quando eu saí do carro e vi que todos que haviam feito o
teste, inclusive eu, tinham passado, fiquei muito feliz! Era a 26ª vez que
tentava aquilo e, na persistência, consegui! Liguei para o meu marido na hora.
Ele ficou tão empolgado com o resultado que saiu gritando pela casa: “a marina
passou!”. Pelo telefone eu conseguia ouvir a gritaria e a alegria por aquela
conquista, foi bonito de ver. Meu marido não economizou nos elogios, disse o
quanto me admirava pela coragem e por ser tão batalhadora. Assim que cheguei em
casa fui recebida com um beijão bem romântico, daqueles de novela... Arrisco a
dizer que ter passado no exame ajudou até meu casamento.
No dia desse exame eu fiz três aulas de direção na
autoescola e quando me preparava para minha 26ª tentativa disse ao meu
instrutor que se eu não passasse novamente, tentaria mais uma vez. Ele olhou para
mim confiante e falou que tinha certeza que eu não ia precisar tentar de novo.
A profecia deu certo!
Mas sabe como é, alegria de pobre dura pouco. Já em casa,
recebi uma ligação da autoescola. O funcionário informou que no sistema do
Detran o meu nome constava como reprovado. A palavra exata na tela do
computador era “inapta”. Eu detesto essa palavra. Ela acompanhou meu nome cada
uma das 25 vezes anteriores e agora parecia que me acompanharia pela vigésima
sexta. Eu mal pude acreditar! Tinha chegado tão perto. E aquela alegria toda
que invadiu minha família? O funcionário da autoescola me pediu calma e disse
que no dia seguinte ia verificar o ocorrido. No dia seguinte, o alívio: houve
um erro no sistema e o registro estava errado. O Detran mudou a palavra e, pela
primeira vez, na frente do meu nome apareceu uma bem bonita: APTA.
O final feliz
Uma semana depois da aprovação eu recebi a minha carteira.
Ela é provisória, significa que durante um ano eu não posso cometer nenhuma
infração grave. Mas eu sou boa motorista, sei que não vai acontecer. Afinal,
treinei bastante, né? Aliás, modéstia a parte, eu fiquei bem bonita na foto do
documento e não quero perder nenhuma chance de mostrar ele para as pessoas.
Fico até torcendo para ser parada pela polícia. Em março de 2017 eu paguei a
última parcela da minha dívida com a autoescola. Foi a última de uma vez por
todas! O sentimento de alívio e de paz de espírito é tão bom! Realizar um sonho
é algo incrível, mesmo que o seu sonho seja algo aparentemente pequeno como
tirar uma CNH. Foram oito anos de luta, mais de 200 aulas, R$ 20 mil gastos e
25 reprovações. Hoje, quando entro no meu Siena e volto para casa pilotando,
sei que valeu muito a pena.
Marina Oliveira,
40 anos, diarista de Tamarana, PR.
