''Conheci o meu amor no grupo da redução de estômago''
''Conheci o meu amor no grupo da redução de estômago''
Atualizado em abril de 2017
Tem uma coisa que a família pergunta, os amigos ficam doidos
para saber e aposto que até você tem essa curiosidade quando descobre um casal
novo. ''Como vocês se conheceram?'', perguntam a rodo. No bar, em uma viagem, no
restaurante preferido... são as respostas mais comuns. Depois vem a leva dos
aplicativos: Tinder, Facebook e sites de paquera, né? A
nossa história é diferente. Conheci meu amor no grupo de WhatsApp formado por pessoas que passariam pela redução de
estômago. ''E onde foi o primeiro encontro dos pombinhos?'', você deve estar se
perguntando. A resposta é uma delícia: nos cruzamos no hospital! Nossa história
é de dar frio na barriga.

Eu me sentia uma
baleia...
Um. Quatro. Oito. Foram os números, nessa exata sequência,
que apareceram na balança quando fiz minha primeira consulta médica. Estava
enorme e decidida a fazer a cirurgia de redução de estômago. Sim, 148 quilos. É
peso demais para qualquer pessoa normal, ainda mais para uma mulher de 1,66 m
de altura. Mas a balança de outra pessoa, o Darwin, ia muito além: já batia os
240 quilos quando ele começou o tratamento. Nossas cirurgias de redução
aconteceram na mesma época. Ficamos muito próximos quando nos conhecemos pelo
grupo. Trocávamos mensagens diariamente. Nos apoiamos muito durante a
recuperação. Assim, fomos conhecendo o outro e eu descobri que o Darwin era
mais que um homem grande, ele seria também o meu grande amor!
Aos 11 anos eu já
fazia dieta
Não me lembro de não ter sido gorda um dia. Desde criança eu
estive acima do peso. Minha primeira consulta com um nutricionista foi aos 11
anos. Também foi com essa idade que fiz minha primeira dieta. Não tenho ideia
de quantas foram, nem de quantos quilos eu perdi até ganhar tudo de novo em
pouco tempo. Quando eu completei 16 anos pesava 110 kg e sofria com isso, o que
me motivou a ''pegar firme'' numa dieta severa que me secou: cheguei a 91 kg.
Logo depois, quando entrei na faculdade, engordei tudo de novo. Frustrada,
desisti; parei de fazer dieta e não procurei mais médico. Aos 22 anos me casei
pela primeira vez e subi ao altar pesando 144 kg. Poxa, é claro que eu sabia
que estava acima do peso, mas, sendo bem honesta, eu não tinha a real noção do
meu tamanho.
Minha vida tinha as dificuldades típicas de uma pessoa muito
acima do peso. Comprar roupa era um sacrifício enorme – bastava entrar na loja
e olhar para a arara que a vendedora logo soltava um ''não temos para o seu
tamanho''. Certa vez fiz uma entrevista de emprego num lugar que ficava a uma
quadra da minha casa e por isso informei que não ia precisar de
vale-transporte, mas o responsável por me contratar perguntou se eu não teria
dificuldades para ficar lá porque havia escadas no local. Aquilo afetou meu orgulho,
fiquei realmente chateada.
Passar por um
divórcio me fez querer emagrecer
Durante o meu primeiro casamento eu me mudei de Campo Grande
para Curitiba. Naquela época meu médico já tinha sugerido a cirurgia de redução
de estômago, mas com a mudança acabei deixando para lá. O casamento foi se
desgastando e eu resolvi voltar para Campo Grande. Logo acabei me separando.
Aproveitei aquele divórcio para retomar minha caminhada na direção de uma vida
mais saudável e assim me reinventar. Tomei coragem e resolvi encarar a
bariátrica. Naquela época eu tinha atingido o maior peso da minha vida: cheguei
aos 148 kg. Se engana quem pensa que é só optar pela cirurgia e pronto, ir para
a sala e sair magra! O processo leva muito tempo, são muitos exames a serem
feitos, a fila na rede pública de saúde é grande e eu tive que reeducar minha
alimentação e perder peso antes do grande dia. Só depois de tudo isso pude
marcar minha cirurgia.
Entrei no grupo de
Whats depois da cirurgia
Eu estava sentada com a minha tia na sala de espera quando
fui marcar uma data para a operação. Eu mal podia esperar para saber o dia da
minha bariátrica. Uma senhora muito simpática foi puxar assunto com a gente ali
mesmo. Era a avó de um rapaz que também estava ali para agendar uma data. O nome
dele era Darwin. A gente não se viu naquele dia, mas ambos marcaram as suas
cirurgias.
O alívio depois da mesa cirúrgica foi maior quando a menina
com quem eu dividi o quarto me falou de um grupo no WhatsApp dedicado a pessoas que estavam para fazer ou já tinham
feito a redução. O nome do grupo é ''Galera do grampo'' – justamente porque o
estômago é grampeado quando a cirurgia é feita. Ela logo tratou de me
adicionar. Lá a gente fala sobre a operação, as dificuldades dos regimes e o
processo de recuperação. É um grupo bem animado e motivador, mas a minha
timidez me fazia só ficar de olho nas conversas, nunca escrevia nada. Toda
noite o grupo bombava, isso por causa da insônia que afeta as pessoas que fazem
a bariátrica. Um dos mais falantes do grupo era justamente um moço chamado
Darwin. Não podia ser outra pessoa, né?
Começamos a conversar
de madrugada...
Numa dessas madrugadas a tela do meu celular brilhou. Era o
Darwin mandando uma mensagem no grupo: ''alguém aí para conversar?''. Eu, num
misto de ousadia e curiosidade, resolvi chamá-lo numa conversa privada. ''Oi, eu
sou do grupo'', escrevi para ele. Conversamos animados e o papo foi tomando
contornos de uma amizade gostosa. Descobri que a gente morava bem pertinho,
umas duas quadras de distância. Papo vai, papo vem, e eu soube que o meu
vizinho também ''grampeado'' tinha uma história e tanto: havia sido casado por
sete anos, estava divorciado, era dois anos mais novo que eu, estava sofrendo
com a cicatrização dos cortes gerados pela cirurgia e já tinha chegado a pesar
240 kg!
Dois meses de conversa no WhatsApp e nada de ele me ver pessoalmente. Eu entendia as
dificuldades dele em se locomover por causa da cicatrização, mas mesmo assim eu
me senti enrolada pelo cara. Um dia fiquei de saco cheio e mandei a real: ou
ele se mexia e aparecia em casa naquele mesmo instante ou ele nunca mais ia
falar comigo. Quinze minutos depois ele estava na minha porta. Que evolução,
hein, Darwin!
Pelo celular, éramos
íntimos. Ao vivo, éramos completos estranhos...
Foi um primeiro encontro curioso. A gente se conhecia, mas
éramos de fato estranhos. Ainda demorou um mês para acontecer o primeiro beijo.
Fomos juntos a uma palestra do grupo do grampo e resolvemos sair depois. No
cardápio da noite tínhamos uma água e um suco. Fomos andando em volta de um
lago de nome sugestivo, o Lago do Amor. Voltamos para o carro dele conversando
bastante. A conversa acontecia animada, mas tensa, era claro que tinha alguma
coisa no ar. Num determinado momento, já dentro do carro, o silêncio se impôs.
Ele queria, eu queria. Ele não tinha coragem, eu tive que ter: tasquei um
selinho no homem! Aí ele finalmente se mexeu, tomou coragem e me deu um beijo
bom, daqueles bem longos. Na semana seguinte ele me pediu em namoro... Mas por whatsapp! Falei que ele teria que pedir
pessoalmente. Foi quando ele me chamou para ir ao cinema. Depois do filme,
antes de entrar no carro, ele fez o pedido. Aí, sim, eu aceitei.
Foram necessários mais seis meses até o pedido de casamento
acontecer. Mas dessa vez ele acertou, fez pessoalmente logo na primeira
tentativa! Aí eu não resisti. Pouco tempo depois decidimos morar juntos e viver
nossa felicidade. Somos um casal de dar inveja porque somos muito amigos. A
gente se ajuda, faz esteira juntos, caminhadas, bicicleta. Cuidamos também da
nossa dieta e comemos bem pouquinho – quando ''juntamos as trouxas'' compramos um
quilo de arroz integral que chegou a estragar de tanto tempo que durou para
gente.
Nosso casório sai
esse ano: é bom que vamos economizar na comida!
Hoje eu peso 82 kg e o Darwin 97 kg. É muito peso a menos,
nossas vidas mudaram completamente. Sexualmente é incrível, descobrimos novas
posições que antes eram impossíveis! Nosso casamento está marcado para novembro
deste ano e vamos convidar toda a ''Galera do grampo'' – assim a gente economiza
bastante comida, né? Nosso médico, Dr. Francisco, e nossa nutricionista, Drª
Laurinete, também são presença confirmada no casório. Vou entrar num vestidinho
bem apertadinho, uma vez que meus dias de vestir 54 foram embora. Hoje eu caibo
folgada numa calça 42. Ele deixou o 74 para lá e veste 46. Tudo isso em outras
lojas, não naquelas onde eu fui tratada mal pelas vendedoras. Dei a volta por
cima e hoje sou feliz como nunca fui antes. Chega de sobreviver, agora eu quero
mais é curtir a vida ao lado do meu amor!
Malu Souza, 29
anos, microempresária de Campo Grande, MS.
