A bomba atômica do Brasil – e outros 5 segredos que o governo tentou esconder
A bomba atômica do
Brasil – e outros 5 segredos que o governo tentou esconder
Atualizado em março de 2017

Neste momento particularmente conturbado da história do
Brasil, quando o país lava as roupas em público, é uma boa hora para lembrar
que às vezes conspirações são mais que teorias e que o Estado tentou varrer
para debaixo do tapete alguns momentos sórdidos da história da nação. Entre
elas, um programa nuclear clandestino, o assassinato de um ex-presidente no
regime militar (ou seriam dois?) e campos de concentração.
O trabalho das Comissões da Verdade, a liberação de
documentos classificados e até o Wikileaks vêm jogando novas luzes sobre aquilo
que imaginávamos saber. Para pesquisadores e historiadores, porém, muita coisa
ainda está oculta.
A sonegação de informações oficiais vem de longe. Começou já
na "certidão de nascimento" do país – a carta de Pero Vaz de Caminha
(ao que parece, herdamos o hábito dos portugueses). "O rei de Portugal,
dom Manuel 1º, demorou um ano para comunicar a descoberta oficial do Brasil ao
sogro, o rei da Espanha", conta o jornalista e escritor Laurentino Gomes "E a carta de
Caminha, que dava detalhes do evento, ficou escondida na Torre do Tombo, em
Lisboa, até 1773".
1. A bomba atômica dos militares
Em 1990, o presidente Fernando
Collor de Mello jogou uma simbólica pá de cal num poço de 320 m para testes
nucleares na serra do Cachimbo, no Pará. "A suspeita é que ele teria sido
construído com recursos do Iraque de Saddam
Hussein para abrigar testes do programa iraquiano. E os dados seriam
cedidos ao Brasil", diz o jornalista Roberto
Godoy, especialista em assuntos de defesa. O poço é só um pedaço de uma
série de operações clandestinas, iniciadas no governo Ernesto Beckmann Geisel, para garantir ao Brasil a tecnologia
necessária para fabricar a bomba atômica (e ogivas para mísseis nucleares).
Na prática, sobretudo a partir do início da década seguinte,
o governo manteve dois programas nucleares: o oficial, com fins pacíficos, e o
paralelo e sigiloso. Sempre houve facções do regime que defendiam que a única
maneira de o Brasil ser respeitado no mundo seria ter a bomba. O Iraque virou
uma peça curiosa nesse enredo, que sobreviveu ao fim da ditadura. Entre 1979 e
1990, o Brasil exportou toneladas de urânio (a matéria-prima do combustível das
bombas) para Saddam. O roteiro nebuloso inclui espionagem e suborno de técnicos
e autoridades estrangeiras, entre outras manobras, que até alimentaram uma CPI
sobre o tema. A Constituição de 1988 havia proibido o país de usar a tecnologia
nuclear para fins bélicos, mas o "esforço paralelo" dos militares
sobreviveu até 1990, segundo confirmou mais tarde José Carlos Santana, ex-presidente da Comissão Nacional de Energia
Nuclear no governo Collor. Quando o CNEM do B deixou de funcionar, o país
estaria prestes a fazer o primeiro teste.
"Em dezembro de 1996, a PF prendeu um alemão que
vendera conhecimentos ao Brasil depois de tentativas frustradas junto ao
Iraque", diz Tânia Malheiros,
autora de "Brasil: A Bomba Oculta – O Programa Nuclear Brasileiro".
Para ela, é só uma amostra de que "há muita coisa a ser explicada".
Hoje o Brasil domina o ciclo de produção do combustível nuclear e está
construindo seu primeiro submarino com propulsão atômica. A revelação de
detalhes estratégicos sobre essa tecnologia e os bastidores espúrios do
programa nuclear estariam no topo das preocupações de quem, no governo Dilma Vana Rousseff, insiste em manter
o sigilo eterno.
2. Ditadura pode ter matado JK, Jango e Lacerda
Em dezembro de 2013, a Comissão da Verdade da Câmara
Municipal de São Paulo publicou um relatório que afirma com todas as letras: o
ex-presidente Juscelino Kubitschek
foi assassinado pela ditadura militar. Até então, a versão oficial era a de que
ele tinha morrido em um acidente de carro na Via Dutra, aos 73 anos, em 22 de
agosto de 1976.
Entre os 90 indícios levantados pela comissão está o
depoimento do perito Antônio Carlos de
Minas, que garante ter visto um buraco de bala no crânio exumado do
motorista do ex-presidente. Josias Nunes
Oliveira, condutor do ônibus que teria fechado o automóvel, diz ter
recusado a oferta de "uma mala de dinheiro" para assumir a culpa no
desastre. Em 1996, com o país havia anos livre do regime militar, uma
investigação tentou esclarecer as circunstâncias da morte de JK e, na ocasião,
o mesmo perito teria tido acesso ao crânio do motorista e concordado com a
versão da ditadura. Por quê?
Há perguntas não respondidas a respeito das mortes de Carlos Lacerda e João Goulart, que com JK formaram a Frente Ampla para o combate à
ditadura. Seria apenas coincidência que os três tenham morrido em menos de um
ano? Jango, o presidente deposto em 1964, de ataque cardíaco em dezembro de
1976, na Argentina. Lacerda, ex-governador do estado da Guanabara, que apoiou a
ditadura para depois mudar de lado, de uma infecção cardíaca em maio de 1977.
A Comissão Nacional da Verdade exumou o corpo de Goulart no
mesmo ano. A suspeita é que ele tivesse sido envenenado na Argentina, vítima da
Operação Condor, uma ação de
extermínio de opositores orquestrada entre as ditaduras do Cone Sul. No final
de 2014, os resultados saíram e, foram inconclusivos. O ex-agente uruguaio Mário Neira Barreiro diz que a ordem
para matar Jango veio da presidência brasileira. Ele cumpre pena no Rio Grande
do Sul por roubo e posse ilegal de arma.
Em 2014, a mesma Comissão Nacional da Verdade rejeitou a
versão da Comissão da Verdade de São Paulo e disse que a versão oficial do
tempo da ditadura está correta e JK não foi assassinado. Os mistérios se
acumulam...
3. Brasil, o vilão da Guerra do Paraguai
As versões e lendas que passaram a cercar a Guerra do
Paraguai, 141 anos depois do fim do maior conflito armado da América do Sul,
são tenebrosas: guerra bacteriológica, extermínio de crianças, degola de
prisioneiros e o incêndio criminoso de um hospital cheio de feridos. Por mais
de um século, o episódio recebeu tratamento triunfal. A historiografia nacional
destacava as batalhas vencidas pelos brasileiros e exaltou personagens e feitos
heroicos. Até que, na década de 1970, os chamados "revisionistas" – como
Julio Chiavenato, autor de "Genocídio
Americano – A Guerra do Paraguai" jogaram acusações como as do início
deste texto no ventilador. Para eles, o governo brasileiro tentou (e ainda
tenta) esconder seu verdadeiro papel no conflito: ode vilão.
Chiavenato diz que o duque de Caxias, o comandante
brasileiro, teria jogado cadáveres no rio Paraná para contaminar a água.
"O general Mitre (Bartolomeu Mitre,
presidente argentino) está de acordo comigo que os cadáveres de coléricos devem
ser jogados nas águas do rio Paraná para levar o contágio às populações
ribeirinhas", teria escrito Caxias ao imperador dom Pedro 2º. Na prática,
era um ataque bacteriológico, usando cadáveres de veículo para micro-organismos
letais.
Não que essa versão tenha virado unanimidade. "O
documento, de autoria desconhecida e evidentemente forjado, não tem valor
histórico algum. Aliás, a versão também não tem lógica, já que o Paraná deságua
no rio Paraguai e o rio não sobe – assim, não seria possível contaminar
ninguém", contesta o historiador Francisco
Doratioto, autor de "Maldita Guerra".
Outra "bomba" que surgiu na onda revisionista foi
o extermínio de crianças nas batalhas de Peribebuí e Acosta Ñu, em 1869. Na
primeira, cerca de 21 mil aliados brasileiros e argentinos enfrentaram 1,8 mil
paraguaios, a maior parte crianças disfarçadas com barbas postiças para que o
inimigo não percebesse a fragilidade do exército. Os poucos adultos usaram
tijolos, cacos de vidro e pedras contra canhões. Na batalha de Acosta Ñu (Campo
Grande, para os brasileiros), a tática de disfarçar garotos de adultos também
acabou em massacre. Placar de mortes: 2 mil paraguaios x 26 brasileiros.
Diferentemente do que o senso comum imagina, o Brasil
estimulou a sobrevivência do Paraguai como nação independente – ao contrário da
Argentina, que gostaria de absorvê-lo. Depois que acabou a guerra, por muito
pouco Brasil e Argentina, aliados no conflito, não começaram outra. Isso só não
aconteceu porque ambos estavam esgotados. Documentos que poderiam mostrar com
mais clareza o papel do Brasil no campo de batalhas estariam escondidos no
Itamaraty, com acesso proibido aos pesquisadores.
4. Rui Barbosa "apagou" a escravidão
"O Congresso Nacional felicita o Governo Provisório por
ter ordenado a eliminação nos arquivos nacionais dos vestígios da escravatura
no Brasil". Com essa mensagem, era aprovada em dezembro de 1890 a decisão
do ministro da fazenda, Ruy Barbosa de
Oliveira, de queimar todos os livros de registros dos cartórios municipais
com dados relativos à compra, venda e transferência de escravos no país. A
papelada foi destruída em 13 de maio de 1891.
A hipótese mais aceita é a de que a intenção era evitar que
o Tesouro Nacional fosse obrigado a indenizar os donos de escravos afetados
pela Lei Áurea, de 1888. "Os senhores de engenho, fazendeiros e grandes
proprietários pensavam em se beneficiar com a República e com as
indenizações", acredita Humberto
Fernandes Machado, da Universidade Federal Fluminense. Para ele, uma
república recém-estabelecida por um golpe militar, com o apoio de antigos
senhores de escravos, poderia ter tomado rumo diferente (pior) se os documentos
existissem. "A queima anulou essa possibilidade".
Mas essa moeda tem outro lado. "Se tivessem o registro
de sua data de compra, os negros também poderiam reivindicar uma recompensa por
terem sido escravizados ilegalmente", acredita Marisa Saenz Leme, da Unesp de Franca. Ela apoia seu argumento em
uma lei promulgada em 7 de novembro de 1831 que proibia o tráfico negreiro. A
ordem não foi cumprida – nos 15 anos seguintes, pelo menos 300 mil africanos
foram trazidos. Em tese, eles poderiam ser beneficiados por indenizações.
Evidência disso é que, em 2006, foi encontrada uma carta da princesa Isabel ao
visconde de Santa Vitória, sócio do Banco Mauá. Nela estava descrita a intenção
de indenizar os ex-escravos com terras e instrumentos de trabalho.
5. Roubamos o Acre
Nos primeiros anos da República, entrou em cena um capítulo
controverso da demarcação de nossas fronteiras: a anexação do Acre. Na região,
viviam diferentes grupos étnicos (nem brasileiros nem bolivianos). Pouco
importava, para eles, quais eram os limites de Brasil, Bolívia e Peru. Para o
governo brasileiro, a região era território boliviano.
"Euclides da Cunha foi feliz quando afirmou que,
durante anos, o rio Purus foi cartografado fantasiosamente por geógrafos e
burocratas que nunca puseram os pés na região. As absurdas coordenadas e linhas
demarcatórias que daí surgiram deram margem para incompreensões sobre o que
passaria a se chamar Questão do Acre", diz o historiador Gerson Albuquerque, da Universidade
Federal do Acre. Para ele, tratados como o de Ayacucho (1867), que embasaram a
demarcação das fronteiras entre Brasil e Bolívia, foram assinados às escuras – pautados
por coordenadas fantasiosas. Esse abandono mudou quando se percebeu que os
pneus da nascente indústria automobilística precisavam do látex acriano como
matéria-prima. Seringueiros do Norte e Nordeste invadiram a região sem que os
vizinhos notassem (ou reclamassem).
Quase 20 anos depois, Bolívia e Peru também cresceram os
olhos para a borracha. Os bolivianos tentaram então arrendar o território para
um consórcio de empresas de capital inglês e americano. E instalaram uma base
militar na região para cobrar impostos sobre a circulação de mercadorias. Os
barões da borracha, com o bolso ferido, se mobilizaram. "A Bolívia era
pequena e muito mais frágil militarmente que o Brasil, a grande nação
expansionista na região. Por isso, teve de ceder ao 'acordo' (o Tratado de
Petrópolis, de 1903, que incorporou o Acre ao território brasileiro)", diz
Albuquerque. Em 2006, o presidente da Bolívia, Evo Morales, reclamou que o país "deu o Acre ao Brasil em
troca de um cavalo". Na verdade, foi por 2 milhões de libras, ou 400
milhões de reais hoje. Pouco para uma área 3 vezes maior que a Suíça (152 mil
km2). Mas o Brasil cedeu terras do Mato Grosso e se comprometeu a construir a
estrada de ferro Madeira-Mamoré para transportar produtos bolivianos até o
oceano Atlântico. A abertura da documentação ainda sob sigilo, para
Albuquerque, poderá lançar outras luzes sobre versões românticas da história.
"Temos o direito de conhecer as tramas e as sujeiras que marcaram a
constituição das fronteiras." Um diplomata brasileiro, sob anonimato,
afirma que até pessoas de outros países reclamam dos segredos brasileiros.
"Existe muita suspeita, e a recente defesa do sigilo eterno fomenta isso".
6. Vargas criou campos de concentração
Qual dos lados envolvidos na 2ª Guerra – os Aliados ou o
Eixo – era mais caro ao presidente Getúlio
Vargas? Na década de 1930, os alemães eram o segundo maior mercado
consumidor de produtos brasileiros. Policiais e militares brasileiros treinaram
com a Gestapo, e o governo entregou aos nazistas judeus alemães que moravam no
Brasil. Em abril de 1942, uma passeata reuniu cerca de 2 mil nazistas
uniformizados no centro de Florianópolis.
Pesa ainda a favor de seu possível pendor para o lado dos
alemães e italianos a revelação, no fim dos anos 1980, do conteúdo das
Circulares Secretas. Nelas, Vargas orientava diplomatas brasileiros na Europa a
não conceder vistos de entrada para o Brasil a judeus e outras minorias
"indesejadas". Segundo a historiadora Priscila Perazzo, a professora e pesquisadora Tucci Carneiro conseguiu burlar a vigilância nos arquivos do
Itamaraty e fez cópias das Circulares, consideradas documentos secretos e,
portanto, proibidas aos olhos dos cidadãos comuns. No fim dos anos 1990, novos
documentos vieram a público.
"Vargas era um homem dos tempos do fascismo. Na década
de 1930, essa era a ideologia dominante em muitos lugares. O Brasil não estava
fora disso", diz Priscila. Ela avalia que o país acabou entrando na guerra
ao lado dos aliados graças a um alinhamento comercial, político, cultural e
diplomático com os EUA que vinha de anos – não foi um ato intempestivo para
vingar o bombardeio de navios na costa brasileira por submarinos alemães. Eles
queriam nos dar um susto para frear essa aproximação com os americanos. Nem foi
uma retribuição interesseira pelo (muito) dinheiro americano investido na
Companhia Siderúrgica Nacional – a versão mais popular para a decisão de
Getúlio.
Em 1942, Getúlio rompeu com Hitler. Mas não com as práticas
fascistas. A diferença é que agora elas se voltavam contra os alemães. É cada
vez maior o volume de descobertas sobre os campos de concentração brasileiros e
sobre os maus-tratos que civis japoneses, italianos e principalmente alemães
sofreram no Brasil. Se não eram locais de tortura sistemática e extermínio em
massa, como na Alemanha, também estavam longe de ser colônias de férias.
Até o fim da guerra, o Ministério da Justiça
manteve 31 campos de concentração em lugares como Pindamonhangaba e
Guaratinguetá (SP), Joinville (SC) e Rio de Janeiro. Para lá, eram mandados os
"inimigos" que chegassem ao país durante o conflito ou que fossem
suspeitos de espionagem. Não podiam ler livros em seu idioma, eram submetidos a
trabalhos forçados na lavoura e muitas vezes dependiam de ajuda externa para
não passar fome. Alguns, acusados de serem nazistas, só podiam receber visitas
no dia de Natal – seus descendentes suspeitam que tenham sido torturados. Cerca
de 5 mil pessoas foram confinadas nesses lugares. Mesmo assim, os nazistas
conseguiram montar uma importante rede de espionagem no Brasil – o que era
considerado um forte indício de que, se conquistasse a Europa, Adolf Hitler voltaria seus olhos para
cá.
