Após pedir para mudar e-mail e crachá, funcionária trans é demitida da TIM
Após pedir para mudar
e-mail e crachá, funcionária trans é demitida da TIM
Atualizado em fevereiro de 2017
A funcionária Ana
Alice Agostinho Ribeiro da Costa,
31, foi contratada pela empresa Everis
como especialista em gerenciamento do relacionamento com clientes, para
trabalhar nas instalações da TIM, em
Santo André (SP). Na época, ainda não havia assumido a transexualidade e
resolveu, depois de um mês na empresa, contar a todos que era transexual.
Segundo ela, a partir desse momento, começaram seus problemas, até ser
demitida, em outubro de 2016.
Em comunicado, por e-mail, a TIM diz que tem respeito à diversidade e que tem um acordo coletivo
de trabalho, que prevê medidas como uso do nome social em crachás, mudanças de
e-mails e banheiro unissex. A Everis,
por sua vez, afirma que a empresa tinha conhecimento da transexualidade da
funcionária e que ela foi desligada por questões de performance, não
preconceito (leia a íntegra dos
comunicados abaixo).

''Quando resolvi assumir, conversei com o RH da TIM. Eles me pediram duas semanas para
viabilizar o necessário. Nesse tempo, conversaram com os gerentes, para que não
houvesse qualquer desrespeito, já que teria 'um homem que viria com roupas de
mulher'. Eles usaram esses termos'', conta.
Ana Alice passou a usar roupas femininas e a equipe que
trabalhava diretamente com ela nunca agiu com desrespeito, segundo ela, mas
tinha problemas para lembrar seu nome social, já que tanto o e-mail quanto o
crachá da funcionária tinham seu nome de batismo.
''Eles faziam o máximo para lembrar, só que todo dia
mandavam, em média, 30 e-mails para 'Arnaldo César'. Muitas vezes, a pessoa
tentava olhar o crachá para lembrar o nome e, novamente, o nome estava errado.
Foi uma situação muito desgastante psicologicamente'', conta.
Ana Alice pedia para que uma colega enviasse os e-mails
necessários para os colegas de trabalho. ''Toda comunicação partia da caixa de
entrada da minha colega, com o aviso: 'enviado em nome de Ana Alice''', conta.
A decisão foi tomada após um episódio constrangedor. ''Teve
um dia que fiquei ajudando uma colaboradora da empresa e, no fim do
atendimento, tínhamos de mandar um resumo do que foi feito. No dia seguinte,
ela sentou ao meu lado e pediu ajuda para identificar quem era o 'Arnaldo César',
que tinha enviado o e-mail. Sai da sala e fiquei 15 minutos no banheiro
chorando. Para mim, foi o auge''.
Ana Alice se uniu então a uma outra funcionária trans da TIM, que também foi demitida na mesma
época, para reivindicar algumas solicitações, como a mudança no e-mail, crachá
e o uso de banheiros femininos. A outra funcionária não concede entrevistas e
prefere não ter o nome divulgado.
''Como a outra funcionária participava da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes
(CIPA), levamos nossas reclamações para a reunião. Nossos superiores não
gostaram e demonstraram isso. Disseram que a gente não precisava falar com os
outros, que era para procurá-los, que eles resolveriam. Para mim, isso foi uma tentativa
de oprimir qualquer possibilidade de nos unirmos'', disse.
De acordo com Ana Alice, as reivindicações foram feitas
durante seis meses ao RH da empresa, além de também terem feito parte da pauta
de duas reuniões da CIPA. ''Em novembro, às vésperas da terceira reunião, a
outra funcionária foi demitida e, quando voltei de licença, pois estava com
conjuntivite, também fui'', relembra.
A justificativa dada pela empresa foi que ela não se
adequava às funções, o que Ana Alice discorda com veemência. ''Nunca tive
nenhum feedback negativo, pelo contrário, todos os retornos que recebi diziam
que eu era uma profissional muito qualificada. Trabalho na área há sete anos e
sempre me dediquei muito'', diz.
Uma das justificativas dadas pela empresa para não alterar o
crachá das funcionárias era que não havia uma lei que obrigasse a fazer isso. ''Eles diziam que seria ruim para a empresa se o nome do crachá fosse diferente
do registrado na Receita Federal, o
que é uma desculpa absurda. Nunca me neguei a apresentar meus documentos
oficiais, só queria que no crachá e no e-mail constassem o nome social, até
para facilitar meu dia a dia e diminuir o constrangimento'', fala.
Ana Alice não pensa em processar a empresa, ''apesar de saber
que deveria'', e, no momento, não está trabalhando. ''Não quero me apresentar
inicialmente com nome masculino, para depois falar da minha condição trans. E
ser transgênero dificulta o ingresso em um novo emprego, principalmente nessa
área que é muito machista e transfóbica'', fala.
Posição das empresas
Questionada pelo Cultura Coletiva, a TIM enviou o seguinte comunicado: ''Sobre o caso em questão, a empresa esclarece que a colaboradora não era uma
funcionária TIM e, em linha com a
conduta que adota com seus prestadores de serviço, garantiu que a mesma fosse
orientada a buscar o RH da empresa da qual fora contratada, para as devidas
providências, já que a TIM não
oferece ingerência na gestão dos negócios dos seus prestadores de serviços. A TIM informa que, de imediato, atendeu
aos pedidos da colaboradora que lhe cabia, e a comunicou que deveria solicitar
às demais alterações para seu empregador. A empresa reitera também que repudia
qualquer forma de discriminação''.
A Everis
também se posicionou, afirmando que ''a empresa mantém processos de
avaliação dos funcionários, realizados periodicamente, que podem ocasionar
desligamentos quando necessário. Quanto aos crachás, a Everis deu início a um processo de mudança (em andamento) para que
todos os funcionários da empresa possam definir seus nomes no crachá, em linha
com o que as empresas vêm adotando para adequação ao atual cenário de diversidade
na sociedade''.
