Uma em cada cinco crianças nascidas no país é filha de adolescente
Uma em cada cinco
crianças nascidas no país é filha de adolescente
Atualizado em fevereiro de 2017
Aos 17 anos, Sandra
Maria da Silva, 40, dava à luz seu primeiro menino. Hoje, sua filha Teresa Raquel da Silva repete sua
trajetória e, também aos 17, acaba de ter uma menina.

A história de Sandra e Teresa não é rara num país onde um a
cada cinco bebês nascidos por ano é filho de uma adolescente – 431 mil em 2016,
de acordo com levantamento preliminar do Datasus.
E essa proporção custa a cair. Nos últimos dez anos, a taxa
de nascidos vivos de jovens menores de 20 anos no Brasil se manteve em patamar
elevado – de 21,1% do total, em 2007, para 21,2%, em 2016.
Nos EUA essa taxa diminuiu 44% entre 2007 e 2015 (último
dado disponível) – os bebês de mães adolescentes são perto de 6% do total.
No Brasil, Norte e Nordeste têm os maiores índices – quase
um terço de gestações precoces. Em São Paulo, embora as taxas sejam mais baixas
(15,1% no Estado e 12,5% na cidade), a queda é lenta.
Especialistas apontam um ciclo: quanto mais periférica e
vulnerável a população, mais mães jovens, condição que agrava a pobreza e gera
mais gestações antecipadas.
A evasão escolar entre elas é alta, e a inserção no mercado
de trabalho é baixa. Estudo do Ipea (instituto federal) apontou que 76% das brasileiras
de 10 a 17 anos que têm filhos não estudam – e 58% não estudam nem trabalham.
Camila Dourado,
18, terminou o ensino médio em 2015 e carrega no colo seu segundo filho – o
primeiro nasceu quando ela tinha 15 anos. "Vou cuidar dele até ele fazer
um ano. Depois não sei".
Outro elemento que estimula a gravidez precoce é a
volatilidade da adolescência. São maiores as chances de a menina esquecer de
tomar a pílula, deixar de usá-la quando terminar o namoro ou de não contar à
família que tem relações sexuais. "A jovem tem um pensamento de que nada
vai acontecer com ela. A amiga engravida, mas ela não", afirma a obstetra Cristina Guazzelli, da Unifesp.

De acordo com o neonatologista Sérgio Marba, da Unicamp, esses bebês também têm maior risco de
prematuridade, baixo peso, mortalidade e complicações como má formação. "É
uma mãe que não faz pré-natal direito, tem condição socioeconômica mais
complicada e muitas vezes esconde a gravidez".
Melhor prevenir
Segundo médicos, os chamados métodos contraceptivos de longa
duração têm se mostrado uma opção eficaz para evitar o problema. Foi um dos
recursos que ajudou os EUA a reduzir suas taxas.
Entre eles estão o DIU de cobre e o DIU hormonal
(dispositivos inseridos por médicos dentro do útero que duram de cinco a dez
anos) e o implante – um bastão de 4 cm que é colocado abaixo da pele, no braço,
e dura três anos.
Desde 2013, a Maternidade
Vila Nova Cachoeirinha (zona norte) mantém um programa para orientar mães
que dão à luz a escolher um dos métodos – que é implantado dias depois do
parto.
Teresa Raquel é uma delas – diferentemente de sua mãe, que
teve sete filhos e depois fez laqueadura (esterilização definitiva).
"Coloquei o implante porque fiquei com medo, não quero ter outro filho".
"A gente tem 600 partos por mês, e 40% delas voltam
[para ter outro bebê]", diz o obstetra Geraldo de Nadai, coordenador do programa.
A inserção pós-parto, porém, não evita a primeira gravidez.
Para isso, seriam necessários programas maiores. "O investimento tem
melhorado, mas não há uma política pública ampla", afirma Nadai.
No ano passado, a Prefeitura de São Paulo distribuiu mil
implantes a seis maternidades e a Unidades
Básicas de Saúde (UBSs). Já o Ministério da Saúde, que oferece apenas o DIU
de cobre entre os métodos de longa duração, diz ter adquirido 1,4 milhão de
unidades entre 2011 e 2015.
"É preciso enfatizar o DIU, que existe em grande
quantidade, e ao mesmo tempo ampliar o cardápio de métodos", diz Adalberto Aguemi, obstetra e
coordenador municipal da saúde da mulher.
Uma coisa é unanimidade entre os médicos: "O fator
primordial é educação. É preciso fazer essas jovens entenderem que têm mais
opções de vida e são úteis para a sociedade", diz Cristina.
O Ministério da Saúde afirma investir em educação e
planejamento reprodutivo.
A pasta cita a distribuição, entre 2011 e 2015,
de 2,4 bilhões de preservativos, além do investimento na compra de 78 milhões
cartelas de pílulas e a distribuição de 32 milhões de cadernetas de saúde de
adolescentes entre os anos de 2009 e 2015.
